Morar na Europa há dois anos mudou a minha forma de observar a moda, mas não mudou o meu olhar brasileiro

Hoje, vivendo de perto o verão europeu, consigo acompanhar não apenas o que aparece nas passarelas, mas principalmente aquilo que realmente ganha as ruas, chega ao varejo e começa a fazer parte da forma como as mulheres se vestem por aqui. E esse é um ponto importante: nem tudo o que vira tendência na Europa necessariamente conversa com a mulher brasileira.

É justamente aí que entra o meu olhar como consultora de imagem.

Eu observo o que está acontecendo aqui, mas sempre faço uma segunda leitura: isso faria sentido no Brasil? A brasileira usaria? Como essa tendência conversa com o nosso clima, com a nossa feminilidade, com a nossa relação com o corpo, com a cor e com uma maneira de vestir naturalmente mais leve e menos rígida?

Porque tendência, para mim, nunca deve ser uma regra. Deve ser uma informação que podemos interpretar.

O que o verão europeu já mostrou

O verão europeu de 2026 confirmou um movimento muito interessante na moda: depois de algumas temporadas dominadas pelo minimalismo e por uma estética mais silenciosa, a roupa voltou a pedir personalidade.

As coleções e o street style trouxeram uma moda mais expressiva, mas ainda bastante usável: volumes maiores, tecidos com textura, renda, transparências, estampas, cores e uma feminilidade menos óbvia.

Alguns desses movimentos, para mim, têm uma conexão especialmente forte com o próximo verão brasileiro.

A renda e as transparências aparecem de maneira mais contemporânea, menos romântica e mais interessante. Vestidos fluidos, sobreposições e detalhes que lembram lingerie ganham espaço sem necessariamente deixar o look excessivamente sensual. No Brasil, acredito que essa tendência tenha ainda mais potencial, justamente pela nossa relação mais natural com a pele à mostra e com tecidos leves.

Outro movimento muito forte é o artesanal. Crochê, tramas, bordados e texturas feitas à mão seguem ganhando relevância. Para nós, brasileiros, isso é especialmente interessante porque não se trata de importar uma linguagem estrangeira. O artesanal já faz parte da nossa identidade. O que muda é o lugar que ele ocupa: deixa de estar restrito à praia e passa a aparecer em vestidos urbanos, conjuntos sofisticados, bolsas e peças de maior impacto.

Também estamos vendo uma mudança importante nas proporções. Calças mais amplas, modelagens arredondadas, bermudas e peças com volume aparecem com frequência. Para a brasileira, acredito muito mais na ideia de equilíbrio do que na reprodução literal: uma parte mais volumosa combinada com outra mais próxima ao corpo, trazendo movimento sem perder feminilidade.

As estampas também voltaram a ocupar espaço. Poás, listras e desenhos mais marcantes ganharam força nas ruas e nas coleções europeias. E aqui acredito que o Brasil tenha liberdade para ir ainda além, acrescentando intensidade de cor e uma estética mais solar.

Mas por que o que vemos aqui chega depois ao Brasil?

Existe, primeiro, uma questão de calendário. Enquanto a Europa vive primavera e verão, o Brasil está passando pelo outono e pelo inverno. Isso faz com que, quando o verão brasileiro começa, muitas dessas referências já tenham passado pelas passarelas, pelas ruas, pelas redes sociais e pelo varejo internacional.

Mas eu não gosto da ideia de que “a Europa dita e o Brasil copia”.

Hoje a moda é muito mais global do que isso.

As grandes capitais europeias ainda têm enorme poder de amplificação de tendências, mas o Brasil também cria, influencia e devolve referências ao mundo.

Por isso gosto de dizer que tendência não viaja pronta. Ela muda de sotaque.

Quando chega ao Brasil, encontra outro clima, outro ritmo de vida, outra cultura e, principalmente, outra relação com a roupa.

E talvez esse seja justamente o meu maior cuidado como consultora de imagem.

Eu sou uma brasileira vivendo na Europa. Consigo observar de perto aquilo que está acontecendo aqui, mas continuo entendendo o repertório, o desejo e a forma de vestir da mulher brasileira.

Não quero simplesmente dizer a uma cliente: “isso está usando na Europa”.

Quero conseguir dizer:

“Isso está acontecendo na moda. Agora vamos entender como essa informação pode funcionar para você.”

Porque, no final, uma tendência só vale a pena quando deixa de ser apenas tendência e passa a fazer sentido dentro da identidade de quem veste.

Karin Lima
Consultora de Imagem

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